quarta-feira, 4 de abril de 2012

Reunião 26/03 - Filme "A Separação"

Data:Reunião 26 de março de 2012.

Local: Sala 10, prédio da História.FFLCH.

Participantes: Ariel, Augusto, Cila, Cybele, Daniella, Danilo, Luciana, Natalia, Valmir Araújo, Peter.

Tema: Filme “A Separação” (Jodaeiye Nader az Simin) de Asghar Farhadi.

Pequeno resumo, retirado da wikipedia, para os que não puderam ver o filme:

A Separation (in Persian: جدایی نادر از سیمین‎ Jodái-e Náder az Simin, "The separation of Nader from Simin") is a 2011 Iranian drama film written and directed by Asghar Farhadi, starring Leila Hatami, Peyman Moaadi, Shahab Hosseini, Sareh Bayat, and Sarina Farhadi. It focuses on an Iranian middle-class couple who separate, and the conflicts that arise when the husband hires a lower-class caretaker for his elderly father, who suffers from Alzheimer's disease.

Apresentação do filme feita por Ariel

O filme apresenta elementos que podem ser relacionados tanto com questões de âmbito universal como com questões que afligem apenas a sociedade iraniana.

Aspectos do filme que podem ser tidos como universais:

1-Comprometimento

Todos os personagens do filme passam por um dilema ético. Apresentam dificuldades em comprometer-se com a honestidade. Os personagens tentam ser honestos ou, ao menos, parecer honestos.

Essa ideia pode ser levada para o âmbito político também, no sentido da necessidade de o governo iraniano comprometer-se com o jogo político, com a concertação política.

2-Separação

As dificuldades encontradas em um relacionamento e, principalmente, em um casamento, podem ser vistas em quaisquer culturas.

A questão de relacionar-se também envolve o comprometimento, por isso que, na atualidade, há um menor grau de relacionamentos duradouros e estáveis.

3-Religião

O peso religioso está presente em diversas partes do mundo. Há de observar como cada um lida com o peso religioso no seu respectivo cotidiano.

A religião representa um elemento transcendental ao qual as pessoas recorrem quando precisam de ajuda ou quando não podem entender a realidade a partir de pressupostos imanentes.

Comentários do grupo:

Para Natalia, a questão da religião ocorre em um âmbito mais individual mas também poderia ser transposta para o regime, no sentido de o regime iraniano abrir-se ou não para o exterior.

4-Moral

Temas morais tais como a oposição de morte e vida ou da razão e emoção fazem parte do cotidiano da maioria das pessoas.

5-O comportamento humano frente à raiva e à frustração

Como os indivíduos, independente do seu país de origem, lidam com as frustrações, com os acidentes e com a raiva.

Aspectos do filme relacionados com a sociedade iraniana:

1-Identidade

O filme procura mostrar como os iranianos lidam com a sua identidade, a qual é, ao mesmo tempo, persa e islâmica.

O legado persa paralelo ao peso da religião islâmica acaba por gerar um conflito de identidade. Assim, a identidade islâmica e persa chocam-se em alguns momentos. Augusto aponta que, no filme, isso pode ser visto quando Nader ensina a sua filha Termeh o que é árabe e o que é persa (farsi).

No entanto, o professor Peter aponta que o Irã não é um país homogêneo, há várias etnias, tais como curdos, árabes e azeris. Apenas a metade da população é persa. Assim, pode-se afirmar que não ocorre uma homogeneidade cultural mas sim uma hegemonia cultural-linguística dos persas.

Esse questionamento sobre a sua própria identidade pode ser traduzido para ao âmbito externo; se o país deve seguir os aiatolás e manter-se fiel aos princípios islâmicos, ou se deve admitir uma abertura mais proeminente na sociedade internacional?

Para Ariel, o contraponto do modelo iraniano atual seria o da Turquia, um país democrático e com um Islã secular. Desta forma, pode-se observar uma polaridade entre o modelo turco e a retórica iraniana de “modelo puro árabe”.

O presidente iraniano, Ahmadinejad, em 2008, adotava um discurso religioso fervoroso. A partir de 2009, pode-se ver que esse modelo foi mitigado, e o Irã, apresenta sinais de crises de identidade. Além disso, algumas lideranças religiosas voltaram-se contra ele. De forma que é possível questionar se a retórica do moralismo religioso, no Irã, está perto de esgotar-se.

Nesse sentido, Razieh representaria o exemplo desse conflito religioso que assola algumas pessoas. No filme, Razieh recorre ao “disque-pecado” para saber lidar com as situações.

2-Divisão da Sociedade Iraniana

O filme mostra a existência de uma divisão de classes sociais. O casal Nader e Simin, com melhores condições financeiras, lidam com questões distintas das do casal Hojjat e Razieh.

Duas classes sociais distintas chocam-se no acidente e na justiça. O casal mais pobre, que é mais religioso, acredita que o Estado acaba por sempre prejudicá-lo.

Além disso, pode-se colocar que a investigação parecia ser parcial, já que o juiz mostrava estar mais preocupado com as queixas de Nader em detrimento das queixas de Razieh.

Comentários do grupo:

Para Luciana, o filme apresenta sutilezas, nas quais se pode observar conflitos de classe, por exemplo, Simin quer que a filha tem um maior acesso ao conhecimento e à globalização.

Danilo coloca que, apesar da existência de diferenças sociais, isso não chega a ser razão para que uma classe trate mal a outra, tal como ocorre em algumas sociedades contemporâneas.

3- Vida urbana em Teerã

Uma série de elementos urbanos podem ser vistos no filme tais como a existência de trânsito e escolas de elite. Dessa forma, comprova-se que Teerã é uma cidade urbanizada e moderna, o que se contrapõe ainda mais com as áreas rurais do Irã.

Ariel levanta outra questão: O regime dos aiatolás tem aceitação em Teerã? Até que ponto?

4- Questão Feminina

O filme mostra duas mulheres diferentes; Razieh é bastante religiosa e pobre, enquanto que, Simin não é tão religiosa e faz parte da classe média. Porém, essas duas mulheres diferentes vivenciam um período de crise de identidade.

Simin questiona se deve sair do país, se isso corresponderia a uma fuga ou resignação. Já Razieh vive em um dilema religioso; caso aceite o trabalho, poderá ajudar financeiramente seu marido, porém terá de mentir para ele, pois ela mesmo não sabe em que medida a religião permite que ela cuide do pai de Nader (tanto que recorre ao “disque-pecado”).

Comentários do grupo:

Para Danilo e Natalia, o filme apresenta uma perspectiva positiva quanto à situação das mulheres no Irã. Porém, Peter aponta que a emancipação feminina no Irã deve ser relativizada; no Irã, a mulher até pode pedir o divórcio, porém esse depende do aval do homem (caso o homem recuse o divórcio, o qadi pode cancelar o casamento). Já o homem pode divorciar-se por tríplice rejeição da mulher (talaq) no sunismo. No Irã xiita, o talaq não é reconhecido

Além disso, ao comparar o Irã com o Paquistão e com o Afeganistão, a mulher iraniana claramente tem mais autonomia. No entanto, ao comparar o Irã com Turquia ou Marrocos, a autonomia feminina iraniana é menos visível. Isso está presente, por exemplo, no direito da solteira ou divorciada de morar ou viajar sozinha.

Para Cila, apesar de o filme mostrar que as mulheres podem ter autonomia no Irã, há de levar em consideração a existência de famílias tradicionais, nas quais essa autonomia é, no mínimo, atenuada.

Ariel questiona em que ponto está a emancipação feminina no Irã?

5- Situação crítica do regime iraniano na atualidade

Irã vive em um momento complicado dado a primavera árabe que assolou diversos países do Oriente Médio. O país deve abrir-se ao mundo ou continuará a manter-se isolado do sistema internacional?

6-Questão Nuclear

Outro aspecto da situação peculiar iraniana é a existência ou não de bombas nucleares. O país deve continuar a enriquecer urânio ou deve parar o enriquecimento para que as sanções da União Europeia e dos Estados Unidos deixem de afetar negativamente a sua economia?

Pontos levantados na reunião:

A honra pode ser relacionada com uma questão religiosa ou cultural?

Para Peter, a ênfase na honra do homem, como um ser dependente do comportamento sexual de sua esposa ou filhas, representaria um elemento mais cultural. Afinal, a busca em manter a honra e a integridade estaria presente em países que não são muçulmanos. Assim, pode-se dizer que a honra é uma questão que aparece antes da religião. No entanto, a honra não deixa de ser um elemento incorporado pelo Islã, uma vez que a maioria dos países árabes são patriarcais.

Peter notou que no filme, mesmo em um ambiente familiar, as mulheres continuam a usar véu. Fato que é, no mínimo, estranho já que as mulheres, quando chegam a lugares domésticos, costumam tirar o véu. Isso, provavelmente, refletiria a existência de regras cinematográficas vigorando no Irã.

Quanto à questão do feminismo no Irã; Peter afirma que quando ocorre uma separação a criança, na maioria das vezes, fica com o pai (oposto do Ocidente). Além disso, o homem pode repudiar a sua esposa, e caso haja denúncia; por exemplo, de traição, o testemunho de uma mulher vale, geralmente, a metade do testemunho de um homem.

Outro aspecto interessante, trazido pelo professor Peter, é que no filme há uma clara duplicidade das pessoas. Todos mentem: Simin, Razieh, Nader e Termeh. Além disso, Simin é mostrada no filme de forma negativa, como uma covarde que pretende fugir do seu país de origem. Enquanto que Nader aparece de forma mais simpática, leal ao pai (assim como o indivíduo teria de ser leal ao seu país).

sexta-feira, 23 de março de 2012

Reunião 12/03 - Intervenção na Síria

Data, Local: 12 de março de 2012. Sala 10, prédio da História. FFLCH.

Participantes: Prof.Peter, Augusto, Daniella, Danilo, Cila, Cybele, José Antônio, Luciana, Natalia, Vladimir.

Tema: Atualidades.

A reunião consistiu na análise de questões da atualidade e, principalmente, sobre uma possível intervenção estrangeira na Síria. Uma série de exposições individuais foram feitas, as quais baseavam-se em perspectivas distintas.


Apresentação Cila – Declaração Política do Partido Comunista Sírio

O texto representa um discurso panfletário, no sentido de atrair atenção ao discurso comunista, contrário ao imperialismo.

De acordo com o panfleto, a Síria deve espantar “os imperialistas”, não permitindo uma intervenção no país. O partido defende o regime de Bashar AL-Assad, por considerá-lo um governo legitimamente anti-imperialista e defensor das lutas populares.

Desta forma, o partido demanda à população síria que lute contra as forças externas e que apoie o governo de Assad. Os levantes violentos que ocorrem na Síria são feitos por grupos terroristas e, principalmente, pela Irmandade Muçulmana. Além disso, os ataques são dirigidos a intelectuais e cientistas com o único objetivo de desarticular e enfraquecer o governo.

O partido acredita na redemocratização prometida por Assad. Ademais, caso houvesse a implantação de um novo governo, esse seria comandado pela Irmandade Muçulmana, considerada como retrograda.

Comentários Peter:

O argumento do partido comunista assemelha-se ao argumento oficial do governo. De acordo com essa visão, a Síria faria parte de um eixo anti-imperialista, junto ao Irà e à Venezuela.

A legitimidade do governo deriva da oposição ao imperialismo, tal como a oposição a Israel e sua ocupação das Colinas de Golã. Além disso, por mais que o regime tenha defeitos, ele serviria a um propósito maior.

O partido visualiza a Irmandade Muçulmana como oposição, e, de certa forma, isso é verdade, pois o governo apesar de extirpar as oposições políticas, não pode erradicar as oposições religiosas.


Apresentação Natalia – Ed Husain “West must not interfere militarily in Syria”

Embora o autor não simpatize com o regime de Assad, o texto apresenta uma perspectiva claramente contrária à intervenção. Para o autor, essa intervenção corresponderia a mais uma intervenção norte-americana a um país de maioria muçulmana.

Além disso, haveria que discutir como ocorreria essa intervenção: seria estabelecido um cordão humanitário? Quem dominaria a Síria? O que apaziguaria as hostilidades chinesas e russas na Síria?

Para Ed Husain, a intervenção conduziria a uma situação ainda pior, pois a Síria não é um país homogêneo e estável, pelo contrário, há uma inegável variedade étnica e religiosa em seu território. Portanto, a guerra teria de servir apenas como último recurso; caso a diplomacia, as sanções e o isolamento de Assad falhassem.


Apresentação José Antônio – Anne Marie Slaughter “How the world could- and maybe should – intervene in Syria?”

O texto, proveniente de uma respeitada internacionalista associada ao governo de Obama, possui argumentos claramente liberais favoráveis à intervenção. Esses baseiam-se em quatro pontos principais:

- A comunidade internacional precisa aceitar que a queda de Assad não é inevitável, assim, é preciso pensar em cenários alternativos, caso contrário, uma guerra civil poderia eclodir.

- Há a necessidade de invocar a política de “responsabilidade de proteger”, portanto, é preciso agir e não apenas falar do que ocorre na Síria.

- Cabe citar que conflitos de grandes proporções emergiram de situações nas quais os governos violaram os direitos de seus cidadãos, como, por exemplo; os judeus na Segunda Guerra Mundial, os iraquianos, com a Guerra no Irã e no Kuwait, os ruandeses, em um conflito que se alastrou por quinze anos, e os conflitos presenciados nos Balcãs.

- Os Estados Unidos devem mostrar seu compromisso com a sociedade internacional de forma a não afetar a sua credibilidade internacional.

A intervenção deve ocorrer, porém, essa deve basear-se em quatro condições fundamentais: a oposição síria demandar a intervenção armada, a liga árabe endossar o pedido, a intervenção limitar-se à proteção dos civis e a imprescindível adoção de um consenso na ONU.

Comentários Peter:

O argumento mais forte do texto consiste no argumento moral, o qual estabelece que a sociedade internacional não deve ficar inerte. Os outros argumentos são mais práticos e fracos.

Além disso, há contra-exemplos de violações de direitos humanos que não foram seguidas por conflitos de maiores proporções.


“What should the United States do about Syria?” A TNR Symposium (The New Republic)

Apresentação Cila- Daniel Dresdner – “Why we should arm the opposition”

O autor propõe que os Estados Unidos cumpram sua função de único país, na sociedade internacional, capaz de enfrentar a situação síria. O governo de Obama não deve mais ficar apenas no âmbito discursivo.

Os Estados Unidos deveriam armar a oposição síria, na tentativa de equilibrar o jogo de forças, uma vez que Rússia e Irã já disponibilizam armas para os defensores de Assad.

A intervenção não equivaleria a uma boa opção; pois, poderia ocasionar mais mortes, gerar um conflito sectário interno, retaliação por parte do Irã e a possibilidade de uma corrida armamentista “por procuração” (proxy wars) dentro das fronteiras sírias.

Comentários Peter:

Há que considerar a possibilidade de a Rússia deixar de apoiar incondicionalmente a Assad, e isso só seria feito se houvesse garantias ao acesso do porto de Tartus, no mediterrâneo, pela oposição síria.


Apresentação Augusto – Suzzane Nossel “Why pressuring Russia and China is the key to ousting Assad”

O veto por parte da Rússia e da China representa a fonte do impasse à intervenção na Síria. No entanto, o isolamento dos dois atores facilita, de alguma forma, um possível convencimento para que mudem de posição.

É necessário convencer a Rússia, uma vez que a China está basicamente apoiando a sua posição, e caso ela mude, nada impede que a China mude também.

Peter: O poder de veto do CSNU não deve ser ignorado, pois ele é capaz de inibir qualquer ação do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Apresentação Augusto - Blake Hounshell “Why Obama’s hand are tied?”

Para o autor, Obama está de mãos atadas não apenas por falta de opções políticas mas também por falta de vontade política para agir incisivamente na Síria, dado a sucessão de erros cometidos na intervenção na Líbia.

Os Estados Unidos deveriam fornecer ajuda humanitária e apoio diplomático, e não sanções econômicas.

Peter: O autor apresenta um otimismo de certa forma ingênuo, pois é difícil acreditar que Assad sairá do poder sem uma intervenção internacional.


Apresentação Danilo – Larry Diamond “How we should engage with Assad in order to oust him?”

A não intervenção na Síria representa uma falha diplomática grave, porém essa intervenção deve representar um acordo político para que não ocorra os mesmos erros da Líbia.

Um governo justo e legítimo deve ser estabelecido, deve ser garantido os direitos às minorias e a família de Assad deve embarcar de forma segura ao exílio.


Apresentação Luciana – Michael Weiss “A blueprint for military intervention”

O autor acredita que os avanços feitos pelo Exército da Síria Livre representam uma vitória do movimento de oposição dentro da Síria.

Há uma guerra civil que já culminou em uma guerra sectária. Nesse sentido, os sírios ansiariam por uma intervenção para que houvesse o fim da violência e o estabelecimento de certa segurança, o que o autor denomina como “efeito psicológico da intervenção”.

Comentários Peter:

Quando se arma um lado, não necessariamente esse lado vencerá, pois Irã, Rússia e China podem armar o outro lado, o que levaria, inevitavelmente, a uma ampla guerra civil e a um risco de expansão da guerra para todo o Oriente Médio.


Apresentação Professor Peter – Media spin acerca da popularidade do regime de Assad

Uma pesquisa da opinião pública, sobre a popularidade de Assad, afirmou que ao redor de 55% dos sírios estariam a favor de Assad. No entanto, pode-se questionar essa pesquisa, uma vez que as perguntas foram feitas apenas a um grupo pequeno de sírios com boas condições econômicas, e parcialmente fora da Síria, o que diminuiria a representatividade dos resultados.


Questionamentos apontados durante a reunião:

· Caso Assad saia do poder, quem ficará no seu lugar?

· Como seria feita uma intervenção? E o desalojamento?

· Na Síria, diferentemente da Líbia, não há um deserto no qual cidades pequenas possam ser bombardeadas.

· Mais difícil diferenciar, na Síria, amigos de inimigos, caso houvesse uma intervenção.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Resumo reunião Irã e Egito -08/12

Data, local: 08 de dezembro de 2011, FFLCH.

Participantes: Carol, Ariel, Cila, José Antônio, Peter e Daniella.

Tema: Irã e Egito

Apresentação Ariel: Texto “Understanding Iranian Foreign Policy : Combining Ideological and Realist Explanations” James Devine

O texto, feito para ser apresentado em um Congresso de Sociologia nos Estados Unidos, pretende analisar a política externa iraniana, sob dois ângulos distintos: o ideológico e o realista.

Ao examinar a política externa iraniana, dois aspectos sobressaem:

1) A importância da Revolução Iraniana, no sentido de uma visão de mundo iraniana norteada pela Revolução de 1979. Isso é ratificado pela existência, na Constituição do Irã, da primazia dos valores revolucionários. A valorização da Revolução embasaria o aspecto ideológico da política externa iraniana.

O autor aponta que o Irã tende a variar entre posições realistas e ideológicas em sua política externa. Nos anos 80, logo após a eclosão da Revolução, a sua política inclinou-se para o lado ideológico. Neste momento, Irã está em guerra com o Iraque, se opõe aos Estados Unidos e se aproxima do Hamas, em 1988, e do Hezbollah. A partir de 1988, com a derrota iraniana, o Irã utilizou a sua política externa de forma mais pragmática, mais realista, apropriando-se do conceito de balança de poder. Como os Estados Unidos representavam um ator poderoso no cenário regional e global, o Irã precisou recorrer à alianças estratégicas para dirimir a assimetria de poder; as relações com a Arábia Saudita se situam nesta lógica pragmática. A partir de 2000, o Irã retornou, progressivamente, a uma posição mais ideológica, tendo como sintoma desta “efervescência ideológica” a eleição de Ahmadinejad em 2005.

Para o autor, a ideologia representa a principal sustentação do regime para a sua legitimidade doméstica e também para a construção de alianças, definindo quais são as nações amigas e inimigas. Ariel apontou a necessidade de avaliar o carisma do governante como forma de sustentar o poder. O antigo aiatolá Khomeini, no dia do seu funeral, atraiu milhares de pessoas, o que, de certa forma, demonstra o papel do carisma no âmbito político. Ariel também citou Max Weber, o qual enfatiza o fator carismático no movimento xiita, podendo ser visto como uma “forma de poder carismática”. Nesse sentido, o próprio Ahmadinejad, no filme “Cartas para o Presidente”, aparenta reforçar esse elemento carismático ao responder as cartas provenientes do povo.

2) No que concerne a questão das alianças regionais, o Irã procura se fortalecer no Golfo Pérsico, no entanto, o país tem dificuldade de se posicionar na região. Com exceção da Síria, tem aliados fracos e informais, tais como o Qatar e o principiado de Omã. A fragilidade das alianças provoca instabilidade regional. Os aliados não logram reforçar a posição Iraniana, pelo contrário, essas alianças se situam muito mais no campo retórico que efetivo.

Ariel questiona o papel da Revolução Iraniana tanto no seu âmbito doméstico como nas suas relações exteriores, se este foi positivo ou negativo para o Irã como um todo.

Comentários Peter: Seguindo a lógica do autor, o relacionamento com a Síria pode ser visto a partir de uma perspectiva realista, já que este país não apresenta quaisquer afinidades, culturais ou ideológicas, com o Irã. Por outro lado, o Hamas, comprometido com a visão Khomeinista, explicita a existência de uma aliança fortemente baseada em identificações ideológicas.

Outro ponto a ser levantado é que a tendência mais moderada da política externa iraniana, durante a década de 90, se relaciona diretamente com a quebra do momento revolucionário do regime Khomeinista, devido à sua quase derrota na Guerra Irã-Iraque. O movimento estudantil e as manifestações dos que queriam liberalizar o regime são resultados dessa crise de legitimidade do regime dos Aiatolás.

Por outro lado, a derrubada de Saddam Hussein e o recente fim da intervenção dos Estados Unidos no Iraque geraram um vácuo de poder que fortaleceu o poder do Irã na região. Ao mesmo tempo, diferentemente do que prega a teoria realista, a política doméstica teve influência significativa na política externa do Irã; no que concerne a questão do carisma, Khomeini pode ser visto como uma pessoa carismática, mas, Khamenei é anti-carismático. O próprio Ahmadinejad tem mais carisma que o Khamenei. Para Cila, Ahmadinejad não é carismático, apenas se utiliza de uma máquina populista (a de responder as cartas) de forma eficiente.

Comentários Peter: A legitimidade do regime se baseia no elemento ideológico, o Irã, ao mostrar-se como uma mistura de democracia e teocracia, acaba por manter o apoio de uma parcela significativa, talvez a maioria, de sua população. A sustentação do regime não é econômica porque, apesar da existência de petróleo, o país apresenta uma performance econômica desastrosa, além da evidente corrupção por parte da elite iraniana.

Texto: Wikileaks

O texto, elaborado por um funcionário das Nações Unidas, pretende examinar as razões dos seqüenciais fracassos na mesa de negociações entre Irã, Estados Unidos e Israel.

Para o Irã, a questão da honra é essencial. O país não aceita sentir-se inferiorizado pelas outras nações.

Os Estados Unidos, devido à assimetria de poder existente entre os atores, acabam por adotar uma posição impaciente nas negociações.

Israel apresenta uma visão de mundo pautada pela percepção de uma ameaça iminente, e, como conseqüência, privilegia o uso da força militar como instrumento de resolução de conflitos.

De acordo com o autor, os três países precisam fazer concessões, reconhecer os atores, de forma equitativa, e construir laços de confiança. Essas ações, além de evitarem uma guerra nuclear, ajudariam na solução do conflito Israel-Palestina, na melhora do Líbano e na relação Arábia Saudita-Irã.

Comentários Peter: A questão da honra é, inquestionavelmente, relevante para os países do Oriente Médio, fator que acaba sendo negligenciado pelas potências ocidentais. Ao mesmo tempo, não se pode desconsiderar o discurso iraniano de aniquilação do Estado de Israel, o qual também constitui-se como fator de empecilho para a continuação das negociações.

Apresentação José Antônio: Texto – “Radical Change” Ed Husain

O autor, que, antes, fora radical islamista, agora é membro de Quilliam Foundation, um think-tank que adota uma postura crítica quanto ao radicalismo islâmico. Ed Husain também trabalha no Council on Foreign Relations.

Ed Husain procura analisar o conflito de idéias existentes entre secularistas liberais e islamistas, no âmbito das eleições egípcias. Para o autor, há um medo generalizado, por parte das potências ocidentais, de que os islamistas radicais vão “seqüestrar” as eleições.

O autor entrevistou alguns membros da Irmandade Muçulmana, questionando-os sobre o que seria um Estado Islâmico. Aparentemente, nenhum soube responder ao certo; fizeram muitas críticas ao secularismo mas não propuseram soluções alternativas. Abou El-Fotouh, da Irmandade Muçulmana, afirmou defender os direitos humanos, no entanto, ao ser perguntado sobre a possibilidade de haver desrespeito a esses direitos, por exemplo, se punições alcorânicas, tais como apedrejamento ou amputação, seriam incorporadas como normas da Carta Constitucional, Abou El-Fotouh adotou uma posição de conformidade e indiferença para com a proteção desses mesmos direitos.

O autor aponta que não se chegou a um consenso sobre qual seria o objetivo da Sharia. Há séculos atrás, a defesa da Sharia se relacionava com a proteção da família, da propriedade e do conhecimento. Regras particulares pautadas por estes objetivos e derivadas das fontes sagradas do Islã eram consideradas como historicamente contextualizadas e mutáveis. Porém, essa concepção mais liberal não é mais recorrente. Os partidos, e a Irmandade Muçulmana, em específico, não desenvolveram o conceito do que representaria um Estado Islâmico. O único assunto que os membros dos partidos parecem concordar é sobre a hostilidade para com Israel.

Comentários Peter: A origem da Irmandade Muçulmana é radical, anti-semita e anti-ocidental, no entanto, a Irmandade Muçulmana transformou-se e pode, eventualmente, evoluir para uma espécie de Partido Democrata Cristão na Alemanha ou A.K.P na Turquia. No partido, há muitos jovens que não são radicais, mas apenas conservadores. Outro aspecto interessante é que a Irmandade Muçulmana além de ter dinheiro e militância, ajuda os necessitados e constrói infra-estrutura, ações que mobilizam considerável apoio popular.

A Irmandade Muçulmana se moderou devido à repressão por parte do regime Mubarak e, mais recentemente, pela pressão dos liberais, porém, com o recente ganho eleitoral dos salafistas, a Irmandade terá que escolher com quem formará coalizão. Caso sejam os salafistas, há um maior risco de radicalização para a direita.

O turismo também deve ser lidado com o novo governo, uma vez que representa a primeira fonte de renda do país. Portanto, caberia questionar qual seria a posição de um Estado Islâmico perante os visitantes ocidentais.

Ariel pergunta se não observamos, pós Primavera Árabe, uma tendência em eleger partidos islâmicos.

Texto 2 “Why Egypt’s Salafists are not Amish?” Ed Husain

Para o autor, a ascensão do grupo salafista no Egito representa perigo por três razões principais:

1) O salafismo representa uma escola na qual terroristas proeminentes são venerados, tais como Osama Bin Laden. Movidos pelo princípio da “hakimiyyah”, os Salafis pregam Deus como sendo o governante supremo sobre os homens. Al Qaeda pretende implantar esse princípio, e para isso, utiliza-se do Jihad.

2) Acreditam que a relação com os não-muçulmanos deve ser mínima. Deve-se suspeitar e até mesmo odiar os que não sejam muçulmanos.

3) Aceitação do “takfeer”; muçulmanos podem ser excomungados e, posteriormente, executados.

Para o autor, esses três pontos unidos ao Jihad poderiam gerar uma confrontação regional e até mesmo global. São esses aspectos que precisam ser encarados pelo Ocidente.

Comentários Peter: A vitória dos salafistas não é tão preocupante como o autor pretende apontar. Os salafistas podem ser considerados um grupo radical, no entanto, não são necessariamente violentos. A grande questão é se os islamistas radicais usarão a democracia para se estabelecer no poder ou se a própria democracia conseguirá se consolidar, forçando os islamistas radicais a se conformar so jogo político não-violento. Nesse sentido, cabe perguntar se um regime com traços islamistas pode promover uma transição para uma democracia mais consolidada, ou, se esse regime acabará por apegar-se ao poder, destruindo o embrião da democracia?

Texto 3 – “Egypt’s Doomed Election” Andrew Reynolds

Para o autor, as eleições no Egito levarã0, inevitavelmente, a um desastre, a uma guerra civil. O Parlamento egípcio não refletirá o desejo da população, pois, os egípcios que foram às ruas foram silenciados pelo processo eleitoral.

O sistema eleitoral imposto pelos militares conduzirá, fatalmente, a uma excessiva representação de determinados partidos, tais como a Irmandade Muçulmana e os Salafistas, enquanto que as minorias, principalmente os coptas e as mulheres, ficam sub-representadas. Ademais, os partidos seculares não possuem uma base eleitoral significativa tais como os dois partidos principais.

Os coptas não votarão em partidos islâmicos, no entanto, também não confiam mais nos liberais, de forma que estarão sub-representados na Assembléia Constituinte.

Os liberais, ao se encontrarem em posição desprivilegiada, recorrerão a uma aliança com os militares, o que não deixa de ser um mau presságio.

Comentários Peter: A questão dos cristãos no Egito é importante. A ameaça à sua segurança poderia provocar uma emigração massiva para países próximos.